
CONCERTO PARA AIRTON BARBOSA.
"No domingo 29 de maio, por iniciativa do maestro Juliano Barbosa, apoio de sua genitora, poeta e escritora Valdinha de Melo Barbosa, da Associação dos Músicos e Amigos da Música – AMAMUS, e da Secretaria Municipal de Cultura de Bom Jardim, o Centro Cultural Marineide Braz proporcionou inesquecível tarde musical.
Realizou-se na ocasião magnífico concerto para lembrar os 35 anos da morte do maestro bonjardinense Airton Lima Barbosa, falecido no Rio de Janeiro em maio de1980. Com grande pendor para arte musical manifestado desde muito cedo, aos dezessete anos desembarcou na Cidade Maravilhosa como vencedor do concurso “Jovem Talentos”, patrocinado pelo Ministério da Educação.
Na homenagem que lhe foi prestada na cidade natal, sob a regência de seu filho Juliano Barbosa, composições de Capiba, Tom Jobim, Pixinguinha, Duda, Dominguinhos e Astor Piazzolla, dentre outros, foram executadas para deleite do público. O grupo instrumental Sopros do Bom Jardim, responsável pela apresentação do que há de melhor na música nordestina, brasileira e universal, realizou exuberante exibição. A participação especial da Banda do Grêmio Lítero Musical Bonjardinense foi um espetáculo à parte. Da pauta constaram conhecidos dobrados brasileiros, que foram entusiasticamente aplaudidos. Além da sociedade local, fizeram-se presentes representantes da revista Continente da CEPE (Companhia Editora de Pernambuco), que deverá trazer futuramente em suas páginas matéria sobre o evento.
Grande número de familiares do homenageado marcou presença, bem como remanescentes do maestro Levino Ferreira, com destaque para os maestros Laurivam Barros e Lúcio Sócrates. Em prantos, a viúva do saudoso Airton, Valdinha de Melo Barbosa proferiu comovente pronunciamento. Por outro lado, vários conterrâneos enalteceram as qualidades do grane musicista que partiu desta vida aos 37 anos de idade."
CORREIO DO AGRESTE (Junho/2016)
Por Dodó Félix.




À procura de Airton Barbosa...
Luzete Pereira

Escrevo estas linhas com a certeza de que não vou saber reverenciar devidamente a grande história de Airton Barbosa, mas, ainda assim, ouso, porque me incomoda a procura.
Comecei pensando que o Brasil é mesmo um país muito rico, culturalmente falando. Tão rico que pode se dar ao luxo de dispensar homenagens a um homem genial. Falo de Airton (Lima) Barbosa. Cheguei è esta história através destas cirandas da vida, cujas voltas sempre acabam lá na banda de cima, no caso, em Pernambuco e, muitas vezes, pelas mãos de Carminha e Urian, como é este o caso.
Este estado tem dado ao Brasil talvez a mais rica contribuição na constituição da nossa “brasilidade”. Às vezes acho que é em Pernambuco (com passagem pela Bahia) que está o celeiro da nossa vida cultural mais profunda. Pois bem, será a cidade de Bom Jardim, na região do semi-árido brasileiro, que nos presenteará, em 1942, com o nascimento deste que é muito mais do que um grande fagotista.
Airton Barbosa se muda para o Rio de Janeiro de Juscelino, em 1960 e terá a oportunidade de aprimorar sua caminhada com Noel Devos, músico francês, radicado no Brasil e revolucionará a música brasileira, muito além do seu sopro maravilhoso, composições e arranjos.
Airton foi o artífice, em 1962, do Quinteto Villa Lobos, grupo de instrumento de sopros e que se consolida como um dos mais importantes grupos de música de câmara do Brasil e que acaba de completar 50 anos e em plena atividade (atualmente está envolvido no projeto dedicado à obra de Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar, o Guinga).
É grande a lista onde Airton Barbosa está presente e não é apenas nas atuações do quinteto. Ele dá as notas na produção de trilhas sonoras para filmes nacionais, como em “Morte e Vida Severina” de Zelito Viana, sobre o poema de João Cabral de Melo Neto. Com Mário de Aratanha, funda, em 1977, a gravadora Kuarup Discos a qual, lamentavelmente, encerra suas atividades em 2009, depois de prestar 32 anos de serviços ao melhor a música brasileira. Este homem de luta enxerga muito além e participa, ativamente, da fundação da Cooperativa dos Músicos do Estado do Rio de Janeiro (COOMUSA).
Airton foi, sem dúvida, um homem singular, mas existe um silêncio, uma coisa que incomoda acerca da sua morte. Ao tentar saber mais da sua trajetória política e das causas da sua morte, este silêncio é ensurdecedor. Sobre este assunto são raras as menções. E exatamente isto, menções, raras e... vagas.
Fiquei muito intrigada por esta alusão de Noel Devos, dizendo que Airton “às vezes chegava atrasado aos ensaios da orquestra do teatro municipal do Rio de Janeiro onde havia sido aprovado em concurso, tirava o sapato durante o ensaio ou ficava lendo jornais socialistas na contagem dos compassos.”
Ora, Airton morreu em 1980, portanto, já na época do governo Figueiredo, época da anistia concebida por manu militari e que, ainda assim, sofria a radicalização de setores inconformados com o processo de redemocratização e que se revelou, por exemplo, no ato terrorista praticado por militares contra o Rio-centro, em 1981, quando se celebrava um show comemorativo ao Dia do Trabalhador. Teria, a morte de Airton, alguma relação com estes momentos vividos no Brasil?
Assim como Devos fala da frustração de ver o quanto o país perdeu pelo muito que Airton poderia ter feito, da falta que faz como instrumentista, o qual, diz ele “até hoje estou procurando”, podemos dizer que nós também estamos procurando registros que nos indiquem as razões que calaram, definitivamente, este artista maior. Alguém sabe?
Fonte: Luis Nassif
(http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-procura-de-airton-barbosa)
CARTA AO FAGOTE
(homenagem ao Prof. Nõel Devos em seus 50° aniversário)
Meu Caro Fagote
Se você hoje esta encostado
Num canto de parede,
Não é por sua culpa
Nem por minha culpa.
Eu estou chateado por isso
E você também esta.
(A culpa não é nossa e não adianta falar sobre isso).
Mas existe uma pessoa
Que esta chateada
Ou até mesmo magoada, “magoada” entre aspas,
Por causa do seu silêncio.
Porque essa pessoa
Ama o fagote. Respira fagote por todos os lados
E não admite um fagote parado, emudecido
Num canto de parede
Para ele o fagote foi feito
Para desvendar todos os mistérios dos sons,
Substituir todas as obras, todos os compositores
Por mais pobres que eles sejam,
Enobrecer os grandes talentos criadores.
Por isso, meu caro fagote,
Trate logo de sair desse canto da parede,
Tirar o seu mofo, olear suas chaves,
Molhas suas palhetas
E, enfim aprimorar o seu som.
Por que essa pessoa está
De olho na gente
E não podemos decepcioná-la.
Porque é o nosso grande mestre Noel Devos.
Airton Barbosa

PRA FALAR DE AIRTON...

Mauricio Tapajós
Prá falar de Airton, prefiro contar um caso (dos muitos que conhecemos) que mostra sua consciência de classe, atividade, e persistência.
Um dia o Airton ligou avisando: - “Vai ter eleição na Ordem dos Músicos!”
- Como é que você soube?
- Descobri. Foi publicado um edital no “O DIA” e uma amiga me avisou.
Vamos fazer uma chapa?
Já sabíamos que não ia dar certo: Era a eleição do Conselho Regional do Rio para renovar apenas um terço dos membros. As eleições são anuais renovando um terço e são meio “escondidas” da classe. Não havia mais tempo para uma campanha e só dava mesmo tempo prá registrar a chapa com quartoze nomes: Sete titulares e Sete Suplentes.
Então começamos a agir: Liga prá Joyce, pro Aquiles, pro Antonio Adolfo, Luizão, Helvius.Reuniões, papos, mil telefonemas e fizemos a chapa com esse pessoal e mais Beth Carvalho, Gonzaguinha, Dori e outros que infelizmente não lembro. Deu tempo de registrar a chapa na Ordem com tudo certo: Documentos, número de vias, protocolos, selos, carimbos, e estampilhas.Aí vinha o pior: mobilizar a turma prá ir votar no fim de semana. E toca o telefone, e faz impresso na gráfica, e sai na noite falando com o pessoal que ta gravando ou tocando nas boates , e vai pro “Ponto dos Músicos” e show , sinfônicas , o diabo.De novo o Airton liga e diz:
- Sabe que foram ao DOPS e disseram que os comunistas iam ganhar as eleições da Ordem?
- Será que vamos todos ter que tirar atestados de bons antecedentes, boa conduta, identidade ideológica ou sei La o que for?
Uma coisa esta certa: Apesar de não estarmos organizado estávamos assustando a chamada “Situação” a ponto deles utilizarem o lema : “Entregar pra governar ”, tão bem utilizados pelos falecidos Cesar de Alencar , Ws e outros.
Em outras palavras, “os ‘‘Homens” estavam chamando os ‘‘Homens”.
Bom: teve a eleição, muita gente da nossa chapa não pode votar porque estavam viajando (e todos os votos por carta foram anulados em comum acordo – senão podia chover carta fajuta prá situação), e muita gente que só tinha aparecido na Ordem prá tirar a carteira e pagar anuidade, foi votar na gente. Quando entrou João Bosco, Chico Buarque, as paredes da Ordem tremeram. Nego foi nos mostrar onde a gente ia sentar nas reuniões do Conselho, e até onde ficava o cofre!
Nós não estávamos nada otimistas: podíamos ganhar aqui na capital mas não sabíamos o que estava acontecendo nas cidades e Estados.
Na segunda-feira começou a apuração daqui e começaram a chegar as urnas de Petrópolis, Volta Redonda , Friburgo, sei lá de onde. E na apuração dos votos do Rio/Capital vencemos. Na apuração dos votos das urnas das outras cidades, como esperávamos , perdemos por quase unanimidade de votos. Lembro que em Volta Redonda deve mesmo ter havido eleição, pois vieram votos para nós.
No resto, vinha a urna, algumas lacradinhas, com lista de presentes beleza e todos os votos para os homens.
E lógico, perdemos. Ficamos até aliviados por não ter que conviver com a Ordem por pelo menos um ano, até que houvesse outra eleição e que outra chapa de oposição realmente renovasse mais um terço dos conselheiros.
E mesmo com a maioria dos votos no conselho Regional do Rio, poderíamos eleger um representante do Conselho Federal. O que não adianta nada, pois são 23 membros e o Federal tem poder de intervenção nos Regionais (acho que já ouvi essa história em algum lugar).
Atualmente existem 18 Conselhos Regionais sob intervenção do Federal. Dezoito. Então, perdemos. Foi até um alivio, apesar de sermos loucos a ponto de tentarmos modificar alguma coisa mesmo com tudo contrário.
Assinamos a Ata e saímos da Ordem com o Airton dizendo : “Ano que vem a gente começa uma campanha pelo menos 6 (seis) meses antes e vamos controlar também o interior do estado nos dias das eleições , colocando fiscais junto das urnas!
Passou um mês do lance e Airton liga de novo: “Sabe que o DOPS bateu La na Ordem? Foi La e perguntou pelos comunistas que tinham ganho as eleições ... Quá Quá
Mauricio Tapajós
Compositor, ex-presidente do Sindicato dos Músicos.

Denis Borges Barbosa
AIRTON BARBOSA
uma estória de Denis Borges Barbosa
(do livro "Geometria sem vértices", 2004)
A TV Continental, canal 9, ficava na Rua das Laranjeiras, onde hoje funciona uma revendedora de automóveis. Decrépita, caquética, os iluminadores traziam e levavam as lâmpadas de casa. Uma câmara só. No banheiro não tinha nem água, cortada por falta de pagamento.
Mas era lá que Aírton Barbosa, fundador do Quinteto Villa-Lobos - tão cedo foi ele de uma vida talentosa -, tinha um programa vespertino de música clássica. Ou melhor – de jazz. Era improviso de começo ao fim. Lógico que ao vivo, e sempre no susto.
Bom que era a dois passos da Pró-Arte. Tarde de quinta feira, principalmente chovendo e com pouco aluno, o gostoso era ver se Aírton tinha um lugarzinho para tocar nas ondas hertzianas, com a delícia de seu fagote habilidoso e sensível, perfeito na leitura à primeira vista.
Um dia dos de temporal, Aírton, meu compadre Flávio Aprigliano e eu tínhamos anunciado um programa de Sammartini, divertimento grande para duas flautas e o baixo contínuo em fagote. O locutor, magro, mal vestido, faz o preâmbulo, o iluminador tira a lâmpada do bolso e coloca no holofote, e eu começo a tossir como um condenado. Era a chuva toda que eu pegara.
Simpatia, água morna, nada cura a tosse. O locutor, aterrado, alonga o início que não se encaixa em nada. Vem alguém com um xarope líquido. Uma colher. Duas. Vira a porra do vidro todo. E lá entramos no ar do jeito que dava.
Deu. Nada de tosse. No meio da segunda sonata, no largo ma non pesante, começamos eu e Flávio a improvisar, como o estilo do barroco italiano exige. Mas saiu uma vontade funda de fazer um jazzinho. Um pouco be-bop. Flávio acompanhou, de surpresa. Afinal, na audiência da TV Continental na tarde de quinta tempestuosa não havia nem mamãe. Cheio de dissonâncias estranhíssimas. Aírton Barbosa me olhou atravessado.
Mas a tarde estava maravilhosa. Que alegria em tocar! Giuseppe Sammartini, o autor das sonatas, que antes sempre eu achara chatinho, estava tão talentoso, tão inteligente. Lindo mais que tudo, o relógio verde do estúdio, agora com a cor de um lado, globo flutuante no espaço, e o quadrante de outro, sem cor alguma, só máquina.
“Beladona”, descobriu meu pai, que veio me recolher hora e meia depois. Uma dose cavalar no xarope... Completamente dopado, eu continuava longe. Aírton acabara o programa fazia tempo, e eu continuava tocando em pleno séc. XVIII.
Fonte : AIRTON BARBOSA,uma estória de Denis Borges Barbosa(do livro "Geometria sem vértices", 2004)
http://www.haryschweizer.com.br/Textos/airton_barbosa.htm

"O Airton Barbosa foi uma pessoa especial, do ponto de vista artístico. Ele tinha uma compreensão artística muito boa. Era uma pessoa muito interessante, muito aberta, carinhosa. E muito culto. Cada ano no aniversário, ele escrevia uns poemas. Ele tinha a maior facilidade. Escrevia até artigo no jornal de literatura. Ele gostava de compor também. A gente teve uma relação muito direta."
http://www.haryschweizer.com.br/Textos/conversa_devos.htm
Noel Devos
